ENTRE VÍSCERAS E TITÂNIO1
Mariana Destro, 2026Embora estejam envolvidas, ambas, numa dança em espiral, prefiro ser uma ciborgue a uma deusa.
Donna Haraway2
Donna Haraway2
Em Titane (2021), a cineasta Julia Ducournau apresenta a anti-história de formação de uma mulher que, sendo parte metal, prefere o toque gelado do aço ao toque de outras pessoas. A primeira cena do filme mostra Alexia, na infância, prestes a sofrer um acidente de carro que a obriga a fazer uma cirurgia na cabeça. Somos levados a acreditar que a própria Alexia provoca o acidente involuntariamente ao distrair seu pai, que está ao volante, com um gesto repetitivo, incômodo, que revela de modo sutil a frieza da garota. Anos depois, já uma jovem adulta, Alexia tem uma enorme cicatriz, placas e parafusos de titânio na cabeça e trabalha como stripper em uma boate. Sem falar palavra, ela dança sobre um carro. Tudo que é feito de metal desperta desejo nela.
Ela é como uma máquina. Logo descobrimos que Alexia também é uma assassina. Quando fica claro que a polícia está em seu encalço, ela descarta sua família original – ateia fogo na casa em que mora com os pais, depois de trancá-los no quarto. Em seguida, ela raspa a cabeça, quebra o próprio nariz com uma pancada autoinfligida, prende os seios com um binder3 e se apresenta para a polícia alegando ser o filho desaparecido de um bombeiro divorciado. Desde o início, é latente que o homem não tem certeza se aquela pessoa é, de fato, seu filho. Mas não importa. Ele não quer mais estar sozinho. Assim, Alexia se torna Adrien. Detalhe: ela está grávida do carro sobre o qual dançava.
Ao assistir Titane, não pude deixar de pensar no mito político-irônico do ciborgue, formulado por Donna Haraway em seu ensaio “Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX” (2000). Curiosamente, esse foi o primeiro texto que Haraway escreveu em seu computador recém-comprado em 1985. Embora frequentemente reduzida ao “Manifesto ciborgue”, a obra de Haraway vai muito além dele, articulando, ao longo de décadas, uma crítica profunda às formas como ciência, tecnologia e gênero se entrelaçam.
No “Manifesto ciborgue”, essa crítica se adensa por meio da formulação de um pensamento que desestabiliza dicotomias como natureza/cultura, corpo/máquina e masculino/feminino — pares que sustentam tanto a epistemologia ocidental quanto certos discursos feministas essencialistas. Em diálogo com os feminismos norte-americanos, com atenção especial aos feminismos negros e latinos, Haraway propõe uma reflexão sobre as transformações nas relações sociais operadas pelas tecnologias do século XX (Fontgaland; Cortez, 2015).
Daí emerge a figura do ciborgue: um organismo híbrido, ao mesmo tempo biológico e técnico, que se monta e desmonta e que aposta no ruído e na confusão de fronteiras em oposição ao “sonho feminista sobre uma linguagem em comum” (Haraway, 2000, p. 91), uma metáfora política contundente para os problemas que se acentuam no Ocidente desde o final dos anos 1970.4
É através do reconhecimento do caráter fluido do que acreditamos que nos compõe identitariamente como seres humanos que é possível “começar a ensaiar” o poder de transformar a realidade que a ficção tem. Uma escrita ciborgue, calcada na polifonia “surgida do processo de descolonização” (Haraway, 2000, p. 55). Afinal, como se constituem as identidades daquelas pessoas a quem, até o momento, na tradição humanista, era negado o status de seres humanos? Não seria o projeto político do feminismo branco de unificá-las, aplainando as múltiplas e complexas camadas não só de constituição identitária, mas também de condições de opressão e reivindicações políticas, um eco das violências do sistema patriarcal-racista-capitalista?
A personagem de Titane é um ciborgue. Por meio de uma história que gravita em torno das questões do corpo, de papéis de gênero e da família, Julia Ducourneau cria uma ficção que borra as fronteiras entre vísceras e titânio, entre natureza e cultura. Uma anti-história de formação cuja protagonista, uma anti-heroína, se monta e se desmonta para sobreviver, descobrindo, no processo, algumas das emoções mais complexas que os seres viventes podem experienciar – ainda que ela não seja propriamente nem humana, nem máquina. Alexia/Adrien é um continuum, um borrão nomeado natureza-cultura (Haraway, 2021) que, logo antes de se tornar mãe e, possivelmente, esposa de seu “pai”, implode:
Diferentemente das esperanças do monstro de Frankenstein, o ciborgue não espera que seu pai vá salvá-lo por meio da restauração do Paraíso, isto é, por meio da fabricação de um parceiro heterossexual, por meio de sua complementação em um todo, uma cidade e um cosmo acabados. O ciborgue não sonha com uma comunidade baseada no modelo da família orgânica mesmo que, desta vez, sem o projeto edípico. O ciborgue não reconheceria o Jardim do Éden; ele não é feito de barro e não pode sonhar em retornar ao pó (Haraway, 2000, p. 43–44).
Além disso, a trajetória de Alexia/Adrien sugere que há, de fato, um trabalho por trás da construção da feminilidade5 que é escamoteado pelas estruturas heteronormativas, ecoando a noção de performatividade de gênero de Judith Butler (2019). Como a própria filósofa enuncia em “Corpos que importam: os limites discursivos do ‘sexo’”, não se trata de acordar pela manhã, abrir o armário para escolher uma roupa correspondente ao gênero desejado, vesti-la e guardá-la novamente no armário ao fim do dia, mas sim entender que nascemos já mergulhados em normas que estruturam a sociedade e que orientam nossos comportamentos de maneira tão coercitiva que somos levados a acreditar que tais normas não são construtos, mas fatos biológicos.
Segundo Butler, o gênero decide a priori quem somos. Dar a ver tais estruturas normativas implica, inclusive, em entender que a materialidade do “sexo” estabelece relações em que corpos que se distanciam das normas de gênero se aproximam da abjeção. Assim, se estabelece a heteronormatividade, uma espécie de régua usada para controlar os corpos de forma tão sofisticada que se engendra dentro de nós e por nós mesmos.6 Em Titane, à medida que a gravidez de Alexia/Adrien avança — quando ela se torna “filho” de Vincent —, seu corpo se torna cada vez mais abjeto. A mesma coisa acontece com Vincent, que injeta hormônios no corpo para reverter o envelhecimento, que corresponde ao desvanecimento das características que definem sua masculinidade.
Assim, o corpo deixa de ser território estável ou passível de domesticação para tornar-se ruína fértil, terreno mutante em que identidades são forjadas e desfeitas sob tensão. Em todo o filme, o gesto de Alexia/Adrien não é o de se reconciliar com qualquer ideia de essência, mas o de atravessar os limites impostos pelo humano. Ao dar à luz, Alexia/Adrien expõe a falência do paradigma humanista, que exige coesão, linearidade e completude. Em seu lugar, emerge um corpo abjeto e amoroso que, ao rejeitar a promessa de retorno ao Éden, abre espaço para outra possibilidade: o porvir de uma ontologia instável e relacional, moldada no ruído, no artifício e no desejo.
1. Publicado com o título “Entre vísceras e titânio: o corpo como ficção tecnopolítica em Titane” em: VERGARA, Luiz Guilherme (org.). y’nterfluxes. Niterói: PPGCA-UFF, 2026.
2. Em 18 de novembro de 2023, na exposição Hotties Tech, realizada na Ble Galeria (Rio de Janeiro, Brasil), com curadoria de Priscila Nassar e Raiana Moraes, tive uma bela surpresa ao me deparar com um trabalho de Iryna Leblon, intitulado “Prefiro ser um ciborgue do que uma deusa” (2023). À época, a cerca de seis meses da defesa do meu mestrado e às voltas com a qualificação, revisitava com frequência o “Manifesto ciborgue”, de Donna Haraway. O trabalho de Leblon, um autorretrato digital em impressão lenticular de 60 x 120 cm, produz um efeito visual hipnótico: conforme o observador se move diante da imagem, a artista alterna entre duas versões de si. Em uma, ela encarna a figura de uma deusa; noutra, de um ciborgue. Em ambas, o corpo está reclinado, evocando a tradição pictórica ocidental do nu feminino. Aqui, no entanto, a suposta passividade da pose se converte em instabilidade. A transição entre as duas imagens – a da deusa e a do ciborgue – se realiza como transformação visual e política. No texto retirado da etiqueta do trabalho na exposição, lia-se: “Inspirado no texto publicado em 1985 por Donna Haraway, A Cyborg Manifesto, Iryna propõe traduzir visualmente a dicotomia entre o ‘ser deusa’ e o ‘ser ciborgue’. É imprescindível o entendimento de que corpos trans não necessitam de validação divina ou biológica para existirem, e a reivindicação do ciborgue ocorre como forma de empoderar um corpo que deveria funcionar sob suas próprias mecânicas e instruções.” No Instagram, a artista complementa: “É também comum notarmos a cisgeneridade querendo expressar a validação através de termos como ‘deusa’ colocando em um pedestal com o projeto de nos desumanizar e tirar do contexto de sociedade.” Disponível em: https://hottiestech.hotglue.me e https://instagram.com/p/C0AhBL6JE04. Acesso em: 20 jul. 2025.
6. Como estratégia política, desviar o objetivo de desmantelar o gênero para a desconstrução da heteronormatividade implica em desessencializar as categorias de gênero, de modo a abolir a noção do feminino universal que Simone de Beauvoir desenvolve em O segundo sexo (uma noção de feminino ainda paradigmática para certos movimentos feministas).2. Em 18 de novembro de 2023, na exposição Hotties Tech, realizada na Ble Galeria (Rio de Janeiro, Brasil), com curadoria de Priscila Nassar e Raiana Moraes, tive uma bela surpresa ao me deparar com um trabalho de Iryna Leblon, intitulado “Prefiro ser um ciborgue do que uma deusa” (2023). À época, a cerca de seis meses da defesa do meu mestrado e às voltas com a qualificação, revisitava com frequência o “Manifesto ciborgue”, de Donna Haraway. O trabalho de Leblon, um autorretrato digital em impressão lenticular de 60 x 120 cm, produz um efeito visual hipnótico: conforme o observador se move diante da imagem, a artista alterna entre duas versões de si. Em uma, ela encarna a figura de uma deusa; noutra, de um ciborgue. Em ambas, o corpo está reclinado, evocando a tradição pictórica ocidental do nu feminino. Aqui, no entanto, a suposta passividade da pose se converte em instabilidade. A transição entre as duas imagens – a da deusa e a do ciborgue – se realiza como transformação visual e política. No texto retirado da etiqueta do trabalho na exposição, lia-se: “Inspirado no texto publicado em 1985 por Donna Haraway, A Cyborg Manifesto, Iryna propõe traduzir visualmente a dicotomia entre o ‘ser deusa’ e o ‘ser ciborgue’. É imprescindível o entendimento de que corpos trans não necessitam de validação divina ou biológica para existirem, e a reivindicação do ciborgue ocorre como forma de empoderar um corpo que deveria funcionar sob suas próprias mecânicas e instruções.” No Instagram, a artista complementa: “É também comum notarmos a cisgeneridade querendo expressar a validação através de termos como ‘deusa’ colocando em um pedestal com o projeto de nos desumanizar e tirar do contexto de sociedade.” Disponível em: https://hottiestech.hotglue.me e https://instagram.com/p/C0AhBL6JE04. Acesso em: 20 jul. 2025.
3. O uso de binders, dispositivo que prende o tecido mamário de modo a achatar os seios, é comum entre homens trans que buscam performar masculinidade.
4. No ensaio A Thing Like You and Me (2012), Hito Steyerl cita o videoclipe de Heroes, de David Bowie, como um marco da “revolução neoliberal”. Lançado em 1977, o vídeo intercala imagens de Bowie de três ângulos diferentes e simultâneos, três clones do mesmo artista, que canta sobre o novo herói: um produto, uma imagem “and nothing but an image” (Steyerl, 2012, p. 49). Junto às doutrinas econômicas promovidas por Margareth Thatcher no Reino Unido e por Ronald Reagan nos Estados Unidos, uma série de marcos culturais elencados por Steyerl teriam consolidado a objetificação dos sujeitos, um processo de comodificação das pessoas que, na linha do tempo proposta pela cineasta alemã, se inicia em 1977 e intensifica-se gradativamente até os dias de hoje. Os sujeitos de outrora, hoje objetos, se tornam imagens. Assim, o neoliberalismo é fundamental para uma nova ontologia das imagens que, por sua vez, são produtos definidos pela sua capacidade de reprodução técnica (Steyerl, 2012), de modo a se perpetuar.
5. Feminilidade, aqui, se refere às normas coercitivas que definem o que compõe corpos femininos, cis ou trans, e as funções sociais atribuídas a tais corpos.
4. No ensaio A Thing Like You and Me (2012), Hito Steyerl cita o videoclipe de Heroes, de David Bowie, como um marco da “revolução neoliberal”. Lançado em 1977, o vídeo intercala imagens de Bowie de três ângulos diferentes e simultâneos, três clones do mesmo artista, que canta sobre o novo herói: um produto, uma imagem “and nothing but an image” (Steyerl, 2012, p. 49). Junto às doutrinas econômicas promovidas por Margareth Thatcher no Reino Unido e por Ronald Reagan nos Estados Unidos, uma série de marcos culturais elencados por Steyerl teriam consolidado a objetificação dos sujeitos, um processo de comodificação das pessoas que, na linha do tempo proposta pela cineasta alemã, se inicia em 1977 e intensifica-se gradativamente até os dias de hoje. Os sujeitos de outrora, hoje objetos, se tornam imagens. Assim, o neoliberalismo é fundamental para uma nova ontologia das imagens que, por sua vez, são produtos definidos pela sua capacidade de reprodução técnica (Steyerl, 2012), de modo a se perpetuar.
5. Feminilidade, aqui, se refere às normas coercitivas que definem o que compõe corpos femininos, cis ou trans, e as funções sociais atribuídas a tais corpos.
REFERÊNCIAS:
- BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: n-1 edições, 2019.
- FONTGALAND, Arthur; CORTEZ, Renata. “Manifesto ciborgue”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2015. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/manifesto-ciborgue. Acesso em: 24 jul. 2025.
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HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: TADEU, Tomaz (org.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2000. p. 37–129.
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HARAWAY, Donna. Quando as espécies se encontram. São Paulo: Ubu Editora, 2021.
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STEYERL, Hito. A Thing Like You and Me. In: STEYERL, Hito. The Wretched of the Screen. Berlim: Sternberg Press, 2012. p. 46–59.
- TITANE. Direção: Julia Ducournau. França, Bélgica: MUBI, 2021, 108 min.