Home           Index            Textos             CV            Contato
ENTRE VÍSCERAS E TITÂNIO1
Mariana Destro, 2026

Embora estejam envolvidas, ambas, numa dança em espiral, prefiro ser uma ciborgue a uma deusa.
Donna Haraway2


Em Titane (2021), a cineasta Julia Ducournau apresenta a anti-história de formação de uma mulher que, sendo parte metal, prefere o toque gelado do aço ao toque de outras pessoas. A primeira cena do filme mostra Alexia, na infância, prestes a sofrer um acidente de carro que a obriga a fazer uma cirurgia na cabeça. Somos levados a acreditar que a própria Alexia provoca o acidente involuntariamente ao distrair seu pai, que está ao volante, com um gesto repetitivo, incômodo, que revela de modo sutil a frieza da garota. Anos depois, já uma jovem adulta, Alexia tem uma enorme cicatriz, placas e parafusos de titânio na cabeça e trabalha como stripper em uma boate. Sem falar palavra, ela dança sobre um carro. Tudo que é feito de metal desperta desejo nela.
            Ela é como uma máquina. Logo descobrimos que Alexia também é uma assassina. Quando fica claro que a polícia está em seu encalço, ela descarta sua família original – ateia fogo na casa em que mora com os pais, depois de trancá-los no quarto. Em seguida, ela raspa a cabeça, quebra o próprio nariz com uma pancada autoinfligida, prende os seios com um binder3 e se apresenta para a polícia alegando ser o filho desaparecido de um bombeiro divorciado. Desde o início, é latente que o homem não tem certeza se aquela pessoa é, de fato, seu filho. Mas não importa. Ele não quer mais estar sozinho. Assim, Alexia se torna Adrien. Detalhe: ela está grávida do carro sobre o qual dançava.

Love Is a Dog from Hell: Alexia no momento da concepção, dentro do carro, em still de Titane (2021).

           Conforme o filme avança, Alexia/Adrien se entrega a outro ser humano, Vincent, o “pai”, e pela primeira vez ambos descobrem a aceitação, a vulnerabilidade, o amor e a morte. Ao estabelecer uma conexão verdadeira com uma pessoa, Alexia/Adrien morre. É dando à luz a uma criatura híbrida, metade humano, metade máquina, com a ajuda de seu “pai”, que ela perece. Alexia/Adrien é rasgada por dentro durante o trabalho de parto e transborda. Os limites do corpo são violados pelo derramamento dos fluidos corporais: sangue e graxa. Vincent acolhe o bebê como uma mãe que acaba de parir. Ao fim do filme, podemos ver a coluna vertebral exposta do recém-nascido, constituída pelo mesmo titânio que foi implantado cirurgicamente no crânio da mãe quando criança.

Ao assistir Titane, não pude deixar de pensar no mito político-irônico do ciborgue, formulado por Donna Haraway em seu ensaio “Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX” (2000). Curiosamente, esse foi o primeiro texto que Haraway escreveu em seu computador recém-comprado em 1985. Embora frequentemente reduzida ao “Manifesto ciborgue”, a obra de Haraway vai muito além dele, articulando, ao longo de décadas, uma crítica profunda às formas como ciência, tecnologia e gênero se entrelaçam.
            No “Manifesto ciborgue”, essa crítica se adensa por meio da formulação de um pensamento que desestabiliza dicotomias como natureza/cultura, corpo/máquina e masculino/feminino — pares que sustentam tanto a epistemologia ocidental quanto certos discursos feministas essencialistas. Em diálogo com os feminismos norte-americanos, com atenção especial aos feminismos negros e latinos, Haraway propõe uma reflexão sobre as transformações nas relações sociais operadas pelas tecnologias do século XX (Fontgaland; Cortez, 2015).
            Daí emerge a figura do ciborgue: um organismo híbrido, ao mesmo tempo biológico e técnico, que se monta e desmonta e que aposta no ruído e na confusão de fronteiras em oposição ao “sonho feminista sobre uma linguagem em comum” (Haraway, 2000, p. 91), uma metáfora política contundente para os problemas que se acentuam no Ocidente desde o final dos anos 1970.4

É através do reconhecimento do caráter fluido do que acreditamos que nos compõe identitariamente como seres humanos que é possível “começar a ensaiar” o poder de transformar a realidade que a ficção tem. Uma escrita ciborgue, calcada na polifonia “surgida do processo de descolonização” (Haraway, 2000, p. 55). Afinal, como se constituem as identidades daquelas pessoas a quem, até o momento, na tradição humanista, era negado o status de seres humanos? Não seria o projeto político do feminismo branco de unificá-las, aplainando as múltiplas e complexas camadas não só de constituição identitária, mas também de condições de opressão e reivindicações políticas, um eco das violências do sistema patriarcal-racista-capitalista?
            A personagem de Titane é um ciborgue. Por meio de uma história que gravita em torno das questões do corpo, de papéis de gênero e da família, Julia Ducourneau cria uma ficção que borra as fronteiras entre vísceras e titânio, entre natureza e cultura. Uma anti-história de formação cuja protagonista, uma anti-heroína, se monta e se desmonta para sobreviver, descobrindo, no processo, algumas das emoções mais complexas que os seres viventes podem experienciar – ainda que ela não seja propriamente nem humana, nem máquina. Alexia/Adrien é um continuum, um borrão nomeado natureza-cultura (Haraway, 2021) que, logo antes de se tornar mãe e, possivelmente, esposa de seu “pai”, implode:

Diferentemente das esperanças do monstro de Frankenstein, o ciborgue não espera que seu pai vá salvá-lo por meio da restauração do Paraíso, isto é, por meio da fabricação de um parceiro heterossexual, por meio de sua complementação em um todo, uma cidade e um cosmo acabados. O ciborgue não sonha com uma comunidade baseada no modelo da família orgânica mesmo que, desta vez, sem o projeto edípico. O ciborgue não reconheceria o Jardim do Éden; ele não é feito de barro e não pode sonhar em retornar ao pó (Haraway, 2000, p. 43–44).
            Além disso, a trajetória de Alexia/Adrien sugere que há, de fato, um trabalho por trás da construção da feminilidade5 que é escamoteado pelas estruturas heteronormativas, ecoando a noção de performatividade de gênero de Judith Butler (2019). Como a própria filósofa enuncia em “Corpos que importam: os limites discursivos do ‘sexo’”, não se trata de acordar pela manhã, abrir o armário para escolher uma roupa correspondente ao gênero desejado, vesti-la e guardá-la novamente no armário ao fim do dia, mas sim entender que nascemos já mergulhados em normas que estruturam a sociedade e que orientam nossos comportamentos de maneira tão coercitiva que somos levados a acreditar que tais normas não são construtos, mas fatos biológicos.
            Segundo Butler, o gênero decide a priori quem somos. Dar a ver tais estruturas normativas implica, inclusive, em entender que a materialidade do “sexo” estabelece relações em que corpos que se distanciam das normas de gênero se aproximam da abjeção. Assim, se estabelece a heteronormatividade, uma espécie de régua usada para controlar os corpos de forma tão sofisticada que se engendra dentro de nós e por nós mesmos.6 Em Titane, à medida que a gravidez de Alexia/Adrien avança — quando ela se torna “filho” de Vincent —, seu corpo se torna cada vez mais abjeto. A mesma coisa acontece com Vincent, que injeta hormônios no corpo para reverter o envelhecimento, que corresponde ao desvanecimento das características que definem sua masculinidade.
            Assim, o corpo deixa de ser território estável ou passível de domesticação para tornar-se ruína fértil, terreno mutante em que identidades são forjadas e desfeitas sob tensão. Em todo o filme, o gesto de Alexia/Adrien não é o de se reconciliar com qualquer ideia de essência, mas o de atravessar os limites impostos pelo humano. Ao dar à luz, Alexia/Adrien expõe a falência do paradigma humanista, que exige coesão, linearidade e completude. Em seu lugar, emerge um corpo abjeto e amoroso que, ao rejeitar a promessa de retorno ao Éden, abre espaço para outra possibilidade: o porvir de uma ontologia instável e relacional, moldada no ruído, no artifício e no desejo.



1. Publicado com o título “Entre vísceras e titânio: o corpo como ficção tecnopolítica em Titane” em: VERGARA, Luiz Guilherme (org.). y’nterfluxes. Niterói: PPGCA-UFF, 2026.

2. Em 18 de novembro de 2023, na exposição Hotties Tech, realizada na Ble Galeria (Rio de Janeiro, Brasil), com curadoria de Priscila Nassar e Raiana Moraes, tive uma bela surpresa ao me deparar com um trabalho de Iryna Leblon, intitulado “Prefiro ser um ciborgue do que uma deusa” (2023). À época, a cerca de seis meses da defesa do meu mestrado e às voltas com a qualificação, revisitava com frequência o “Manifesto ciborgue”, de Donna Haraway. O trabalho de Leblon, um autorretrato digital em impressão lenticular de 60 x 120 cm, produz um efeito visual hipnótico: conforme o observador se move diante da imagem, a artista alterna entre duas versões de si. Em uma, ela encarna a figura de uma deusa; noutra, de um ciborgue. Em ambas, o corpo está reclinado, evocando a tradição pictórica ocidental do nu feminino. Aqui, no entanto, a suposta passividade da pose se converte em instabilidade. A transição entre as duas imagens – a da deusa e a do ciborgue – se realiza como transformação visual e política. No texto retirado da etiqueta do trabalho na exposição, lia-se: “Inspirado no texto publicado em 1985 por Donna Haraway, A Cyborg Manifesto, Iryna propõe traduzir visualmente a dicotomia entre o ‘ser deusa’ e o ‘ser ciborgue’. É imprescindível o entendimento de que corpos trans não necessitam de validação divina ou biológica para existirem, e a reivindicação do ciborgue ocorre como forma de empoderar um corpo que deveria funcionar sob suas próprias mecânicas e instruções.” No Instagram, a artista complementa: “É também comum notarmos a cisgeneridade querendo expressar a validação através de termos como ‘deusa’ colocando em um pedestal com o projeto de nos desumanizar e tirar do contexto de sociedade.” Disponível em: https://hottiestech.hotglue.me e https://instagram.com/p/C0AhBL6JE04. Acesso em: 20 jul. 2025.

3. O uso de binders, dispositivo que prende o tecido mamário de modo a achatar os seios, é comum entre homens trans que buscam performar masculinidade.

4. No ensaio A Thing Like You and Me (2012), Hito Steyerl cita o videoclipe de Heroes, de David Bowie, como um marco da “revolução neoliberal”. Lançado em 1977, o vídeo intercala imagens de Bowie de três ângulos diferentes e simultâneos, três clones do mesmo artista, que canta sobre o novo herói: um produto, uma imagem “and nothing but an image” (Steyerl, 2012, p. 49). Junto às doutrinas econômicas promovidas por Margareth Thatcher no Reino Unido e por Ronald Reagan nos Estados Unidos, uma série de marcos culturais elencados por Steyerl teriam consolidado a objetificação dos sujeitos, um processo de comodificação das pessoas que, na linha do tempo proposta pela cineasta alemã, se inicia em 1977 e intensifica-se gradativamente até os dias de hoje. Os sujeitos de outrora, hoje objetos, se tornam imagens. Assim, o neoliberalismo é fundamental para uma nova ontologia das imagens que, por sua vez, são produtos definidos pela sua capacidade de reprodução técnica (Steyerl, 2012), de modo a se perpetuar.

5. Feminilidade, aqui, se refere às normas coercitivas que definem o que compõe corpos femininos, cis ou trans, e as funções sociais atribuídas a tais corpos.

6. Como estratégia política, desviar o objetivo de desmantelar o gênero para a desconstrução da heteronormatividade implica em desessencializar as categorias de gênero, de modo a abolir a noção do feminino universal que Simone de Beauvoir desenvolve em O segundo sexo (uma noção de feminino ainda paradigmática para certos movimentos feministas).

REFERÊNCIAS:

  • BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: n-1 edições, 2019.
  • FONTGALAND, Arthur; CORTEZ, Renata. “Manifesto ciborgue”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2015. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/manifesto-ciborgue. Acesso em: 24 jul. 2025.
  • HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: TADEU, Tomaz (org.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2000. p. 37–129.
  • HARAWAY, Donna. Quando as espécies se encontram. São Paulo: Ubu Editora, 2021.
  • STEYERL, Hito. A Thing Like You and Me. In: STEYERL, Hito. The Wretched of the Screen. Berlim: Sternberg Press, 2012. p. 46–59.
  • TITANE. Direção: Julia Ducournau. França, Bélgica: MUBI, 2021, 108 min.
© 2026 Mariana Destro