Fruto Proibido

︎A Pilastra
“I am, I am, I am.”1
Sylvia Plath (1963)

“we are the modern cunt
positive anti reason
unbounded unleashed unforgiving
we see art with our cunt we make art with our cunt
we believe in jouissance madness holiness and poetry
we are the virus of the new world disorder”2
VNS Matrix (1991)

Seduzida pelas promessas de que o caminho da existência estaria garantido pelas performances insistentemente cotidianas de feminilidade, ela, sem perceber, reconstruiu o corpo. Agora, admitindo que dinâmicas de poder estão imiscuídas às relações humanas, tanto em uma macro quanto em uma microesfera, há de se perguntar qual a extensão de seu campo de ação. Quem sou eu?

Depois que o mundo foi criado, segundo a tradição judaico-cristã,3 deus criou o homem para, só então, criar a mulher. “Ela será chamada mulher porque do homem foi tirada” (Gênesis 2:23). Havia a árvore da ciência, a única no Jardim do Éden cujo fruto era proibido para o homem e a mulher. Certo dia, a serpente sibilou para a mulher, que desobedeceu deus, comeu o fruto e o ofereceu ao homem. Assim, a mulher amaldiçoou a humanidade. O pecado original.


No folclore medieval, a serpente era Lilith, a primeira mulher a habitar o Jardim do Éden. Ao contrário de Eva, que foi criada a partir da costela de Adão, Lilith foi feita a partir do pó, assim como Adão. Ela se recusou a deitar sob o corpo do homem, como se fosse apta somente à posição inferior. A mulher sabia que era igual ao homem, mas ele desejava dominá-la. Lilith fugiu do paraíso.

Volto à pergunta, quem sou eu? Aqui, artista latino-americana, de modo que não posso deixar de me perguntar sobre a natureza epistemológica da produção de imagens na arte contemporânea. Não só; também devo me perguntar sobre a problemática da representatividade em nossos espaços imediatos. Como podemos romper e mudar essas práticas para a melhoria de todas e todos os membros da sociedade?

De dezembro de 2018 a março de 2019, realizei no deCurators o ciclo Olho Selvagem. Como exercício curatorial, mostrou-se espontaneamente uma alternativa ao modus operandi falogocêntrico, que ainda embasa a maior parte das relações entre instituição e curadora, curadora e artista, artista e obra. Tendo surgido apenas como uma reivindicação político-identitária, o ciclo tomou forma ao dobrar-se sobre si mesmo. Um movimento que, como se sugere, desvelou-se à medida que as 25 artistas mulheres4 se juntaram ao Olho Selvagem. Fruto Proibido surgiu, nesse contexto, como um desdobramento.


Donna Haraway, filósofa estadunidense, pontuou que nós, mulheres, precisamos nos tornar mais tecnologicamente proficientes, sabermos articular a informática da dominação e desafiar esses sistemas. A filósofa argumenta que nós precisamos ter conhecimento e sermos usuárias politicamente atentas da tecnologia. Apenas usá-la não é o bastante. A internet pode ser um espaço vital para reivindicarmos nossos territórios.

O que poderia ser mais contemporâneo que a ideia de que não existem fronteiras entre o mundo material e o mundo virtual? Aliás, há de se questionar a pertinência de diferenciar um mundo do outro. As artistas reunidas em Fruto Proibido, consciente ou inconscientemente, lidam com temas que hoje, mais do que nunca, são caros à nossa sociedade. Elas sabem muito bem que suas existências se situam em campos de batalha. É impossível esquecer disso uma vez que se é não masculino.5




1 Tradução da curadora: “Eu sou, eu sou, eu sou.”

2 T.C.: “somos a buceta moderna/ positiva anti razão/ sem limites solta implacável/ vemos arte com nossa buceta fazemos arte com nossa buceta/ acreditamos em jouissance loucura santidade e poesia/ somos o vírus da nova desordem mundial”


3 Lembrando que, no Brasil, estamos inseridas e inseridos em uma cultura ocidental, greco-romana e judaico-cristã.


4 Agrippina R. Manhattan, Alexandra Martins, Alla Soüb, Ana Matheus Abbade, Beatriz Perini, Bia Leite, Carli Ayô, Danna Lua Irigaray, Débora Passos, Gabriela Mutti, Kabe Rodríguez, Laura Fraiz-Grijalba, Luara Learth, Malena Stefano, Manoela Morgado, Maria Eugênia Matricardi, Maria Léo Araruna, eu (Mariana Destro), Martha Suzana, Mile Lemos, Nebulosa Stoppa, Pietra Sousa, Romulo Barros, Sarah Alvim e Thalita Perfeito.


5 Uma ontologia negativa.
Mark
oi@marianadestro.com